Souvenirs [Montpellier]. Quels sont les vôtres?

Sobre a obra
Esta obra é um work in progress composto por 8 cartões postais. Cada cartão postal contém uma fotografia feita por mim de pontos turísticos presentes em cartões postais de Montpellier e um verso com informações adicionais. Em cada imagem, eu escondo o ponto de atenção principal do ponto turístico (monumentos, estátuas, fontes ou prédios) com uma folha de papel branco.
 
Na indústria do turismo, o cartão postal é tradicionalmente empregado como uma peça de souvenir. O souvenir é um objeto geralmente de baixo valor de aquisição, produzido em massa, que retrata e simboliza características de um lugar. Essas características são consideradas como um uma iconografia representativa de um lugar. Esse processo de representação é consequência e ao mesmo retroalimenta a fetichização e transformação desses locais em mercadoria em forma de imagem.
 
A escolha desses pontos específicos também altera as relações econômicas, sociais e afetivas da cidade. O local passa a ser reconhecido em termos turísticos por essas características, e a inevitável exclusão de outros pontos diminui a percepção e valorização de outros aspectos da cidade, ou de outras realidades também presentes na cidade. Essas últimas adquirem um certo ar de invisibilidade.
 
O souvenir é adquirido em uma viagem com o objetivo de lembrar uma visita (ele funciona como uma memória afetiva de um local ; para narcisistas, funciona como o troféu de uma conquista ; para consumidores ávidos, é peça integrante da cultura da acumulação) ou de servir de presente para pessoas queridas, amigos e familiares. No caso do cartão postal, o texto escrito em seu verso adiciona ao objeto lembranças e narrativas pessoais. A pessoa conta um pouco de sua estada naquele local, ou de memórias de alguém que vieram à mente no local visitado. Nesse sentido, o cartão postal se torna também um elemento para a ativação e manutenção de uma rede de relacionamento.
 
A mensagem enviada no cartão postal, diferente da compartilhada em meios digitais, não é instantânea. Ela pode demorar de dias a semanas para ser recebida pela outra parte. Essa característica temporal permite com que a pessoa que escreve estabeleça uma relação diferente com a escrita, podendo ser entendida como um convite à reflexão.
 
Essa mensagem pessoal se une à uma imagem que foi produzida em série e transformada em objeto. Nesse processo, o que foi produzido de forma serial, mecânica, é contaminado por esse universo íntimo. O objeto se torna também um veículo, um guardador de traços de uma experiência pessoal. Essa intimidade e o uso de um objeto de produção em massa como artefato artístico restabelecem uma certa aura à esse objeto. A vida curta e efêmera do material impresso ganha sobrevida, e as futuras marcas da ação do tempo aumentam o aspecto nostálgico do objeto, que é também reforçado pela uso da fotografia preto e branco.
 
Ao esconder o principal elemento de atenção do ponto turístico, eu convido o espectador a utilizar sua memória e lembrança para reconstruir em sua mente a imagem. Ou simplesmente a criar uma estória baseada no que não se vê, no que se encontra escondido, guardado, invisível.
 
Com esse gesto simples, a representação iconográfica do ponto turístico é subvertida, e o cartão postal se torna uma lembrança de uma lembrança a ser completada pelo espectador (mentalmente, ou pela mensagem a ser escrita no verso) e o destinatário da mensagem.
 
O ambiente que circunda esse elemento também se torna proiminente, simbolizando em algumas das imagens os conflitos entre outras realidades presentes na cidade.
 
Por suas características de impressão, os cartões postais em geral apresentam pequenas variações cromáticas. O objeto, quando recebido por seu destinário, carrega em si também marcas do seu processo de distribuição. A obra é assim contaminada não só pela mensagem a ser escrita, mas também por seu processo de disseminação.
 
Esse aspecto é explorado na obra. O espectador é convidado a se transformar em parte integrante ativa da obra, ao escrever uma mensagem; e também ao escolher qual será o destino desta mensagem. Essa mensagem pode ser enviada à alguém da escolha do espectador, ou ao artista. Nesse caso, ela pode futuramente ser parte integrante de um segundo ato da obra, onde o cartão postal será apresentado com a mensagem escrita e as marcas do processo de disseminação.
 
O espectador pode ainda escrever uma mensagem e deixar livre à factrice / facteur (carteiro / carteira) a escolha de um endereço. Nesse caso, o processo de disseminação ganha ainda outros contornos: o imprevísivel passa a atuar de forma evidente na obra.
 
Por último, o espectador pode ainda guardar a obra, rejeitando o caráter de compartilhamento, disseminação e participação da obra, e reforçando os aspectos de acumulação e colecionismo.
 
A obra também busca diminuir a fronteira entre a arte e a vida cotidiana, na utilização da arte como forma de comunicação e na integração dos processos de colaboração, produção e disseminação à obra.
 

2019, 18,9 x 14,1 cm cada, impressão jato de tinta sobre papel photo dupla face fosco 250 gr. Schwarzwald Mülhe

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