estendendo o saber-do-corpo

À margem do fluxo, com seu contorno variável e temporal, habita um espaço fértil para germinação.
Terra úmida, presença próxima da água.
Território instável porém generoso, propício a novas vivências.
 
Nessa beira de flúmen, tendo mãos como instrumentos, roupas sujas são molhadas, atritadas, enxaguadas.
 
Deitadas depois.
Tocando onde se pisa, estendidas, vulneráveis sobre o oblíquo chão.
 
Reunidas, desarmadas de consciência, desnudam com anseios uma outra paisagem sobre a que já existia.
 
A água escorre, evapora dos trajes.
Pouco a pouco, no natural tempo do secar.
 
Esquecidos sob o atuar.
Do vento.
Do sol.
Do ar.
 
Sem mando, nem ligeireza.
 
Estarão dispostas, em algum momento, para um novo curso.
De prática e potência.
 
Familiares ao corpo, funcionarão como casca de moldagem flexível, distintas colorações.
Como segunda pele transitória, resguardarão e delimitarão o que é de fora e o que é de dentro.
 
Mas por mais asseadas em que se convertam, são hábeis em driblar com malícia o sensível.
Sabem, em troca de seus afazeres, guardar muito bem segredos nas tramas.
Sem nenhum alarde, escondem em si restos de narrativas à espera de serem decifradas.
Vindas de dentro e de fora do corpo, em busca de se fazerem sentido.
 
Como memórias vivas dos efeitos do mundo vivo em nosso corpo igualmente vivo.
Contornando em nosso universo tátil as formas e forças que atuam e habitam o saber-do-corpo.
 
2016, série fotográfica, 80 x 60 cm cada
 

 

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